Cigarras são iguais no Japão? Fotógrafa brasileira registra espécies do 'outro lado do mundo'
Cigarra da espécie Planopleura kaempferi Aline Horikawa Nos países de clima temperado, onde as estações do ano são bem definidas, cada época tem caracter...
Cigarra da espécie Planopleura kaempferi Aline Horikawa Nos países de clima temperado, onde as estações do ano são bem definidas, cada época tem características próprias. No Japão, a temporada das cigarras marca a chegada do verão e anuncia que o calor veio para ficar durante alguns meses. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram "No Japão, as cigarras são vistas como verdadeiras "mensageiras das estações". O aparecimento das diferentes espécies acompanha a evolução do verão e seus cantos marcam o início, o auge e o fim da estação. Para muitos japoneses, ouvir as primeiras cigarras significa que o verão começou de fato. Além disso, esse som desperta um forte sentimento de nostalgia, muito presente na cultura do país", conta Aline Horikawa, mineira que mora desde 2017 na província de Shiga, a cerca de 500 quilômetros de Tóquio. Técnica em meio ambiente e fotógrafa de natureza, Aline aproveita esse período para documentar diferentes espécies. No Brasil, ela já tinha o hábito de fotografar cigarras, mas foi no Japão que passou a observar esses insetos com mais atenção. A maior parte das imagens foi feita em parques urbanos, embora Aline Horikawa também tenha encontrado indivíduos em trilhas e áreas de montanha. "Não é fácil. Algumas espécies são verdadeiras especialistas em se camuflar na casca das árvores, como a espécie Planopleura kaempferi. Em muitos casos eu primeiro escuto o canto e depois tento localizar de onde ele está vindo. Às vezes há três ou quatro espécies cantando ao mesmo tempo na mesma área, o que torna a busca ainda mais desafiadora. É justamente isso que torna a observação tão divertida", revela a fotógrafa. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: DIVERSIDADE NO SEMIÁRIDO: Nova espécie de peixe das nuvens é descoberta na Caatinga e mobiliza moradores para evitar extinção RISCO: Cágado amazônico perde população e entra na lista de espécies ameaçadas FORTALEZA NATURAL: Por que o fruto dessa árvore explode? Ciência explica como o assacu lança sementes a dezenas de metros Variedade Cigarra da espécie Cryptotympana facialis Aline Horikawa Estudos entomológicos — ramo da biologia dedicado ao estudo dos insetos — estimam que o Japão possua cerca de 36 espécies e uma subespécie de cigarras. A maior diversidade está nas ilhas do sul, especialmente em Okinawa e na região de Kyushu. Em Honshu, onde fica a província de Shiga, ocorrem aproximadamente 15 espécies. Até agora, Aline Horikawa registrou as espécies mais comuns, porque ainda não saiu exclusivamente para procurar cigarras. Somente na ilha de Honshu, ela fotografou seis espécies distintas. Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 No futuro, pretende fazer expedições específicas às áreas montanhosas, onde vivem algumas das espécies mais raras. Mas será que, do outro lado do mundo, as cigarras apresentam o mesmo comportamento observado na América do Sul? Comportamento das cigarras no Japão "Elas também produzem o canto característico das cigarras. A diferença é que cada espécie japonesa possui um som muito próprio. Com um pouco de experiência, é possível identificar várias delas apenas pelo canto. Outra curiosidade é que, ao contrário do que costuma acontecer no Brasil, aqui é raro ser atingido pelo jato de líquido que elas expelem. Você pode ficar embaixo da árvore onde elas estão cantando e, na maioria das vezes, isso não acontece", revela Aline. Cigarra da espécie Graptopsaltria nigrofuscata Aline Horikawa Em determinada fase da vida, as cigarras alimentam-se exclusivamente da seiva das árvores, um líquido rico em água. Para sobreviver, esses insetos precisam ingerir grandes volumes. Por isso, o excesso é rapidamente filtrado e eliminado em forma de jatos. Aline Horikawa, que também fotografa aves e mamíferos, conta que utiliza a mesma câmera para todos os registros, mas troca as lentes de acordo com o animal. Para fotografar aves, costuma usar uma lente de 150–600 mm. Já para cigarras e outros insetos, prefere uma lente de 100–400 mm, que permite registrar os animais com mais facilidade em distâncias menores. "Muitas vezes a cigarra está cantando bem acima da sua cabeça e você simplesmente não consegue encontrá-la. Você sabe que ela está ali, escuta o canto o tempo todo, mas localizá-la entre os galhos e folhas pode levar vários minutos. Quando finalmente a encontra, a sensação é muito gratificante." Os registros feitos pela fotógrafa brasileira são publicados no site iNaturalist, uma das principais plataformas de ciência cidadã do mundo. Pela internet, observadores e especialistas colaboram na identificação das espécies e compartilham informações que ajudam pesquisadores a conhecer melhor a distribuição da fauna no planeta. Cigarra da espécie Tanna japonensis Aline Horikawa Aline Horikawa afirma que gosta de registrar as espécies que encontra e disponibilizar essas informações em plataformas públicas, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a fauna da província onde mora e sobre a biodiversidade do Japão. "Semi" é como se pronuncia a palavra "cigarra" em japonês. No país asiático, os nomes de muitas espécies terminam com essa palavra. Um exemplo é a Minminzemi (Hyalessa maculaticollis), cujo nome faz referência ao seu canto característico, semelhante a "min-min". É um som bastante conhecido pelos japoneses e aparece com frequência em filmes, animes e programas de televisão. Quando alguém não sabe identificar a espécie, normalmente diz apenas que viu uma "semi", ou seja, uma cigarra. Cigarra da espécie Hyalessa maculaticollis Aline Horikawa As cigarras pertencem à família Cicadidae. Os especialistas já descreveram 1.500 espécies no planeta. Esses insetos apresentam metamorfose incompleta. As fêmeas morrem depois de fazerem a postura dos ovos. Assim que eclodem, as ninfas caem no chão e entram na terra. As ninfas vivem no solo por até 17 anos, dependendo da espécie. Depois, cavam túneis, sobem nas árvores e passam pela ecdise, processo de troca do exoesqueleto característico dos animais que apresentam esse tipo de crescimento. O acasalamento ocorre nos meses mais quentes do ano. Som da infância "O som das cigarras desperta lembranças da infância, das férias escolares e dos verões passados, transmitindo um forte sentimento de nostalgia. Por isso, elas aparecem com frequência na literatura, na poesia, em filmes, animes e músicas. Além disso, sua metamorfose, quando emergem do solo e deixam para trás o exoesqueleto, também simboliza renovação, crescimento e o início de um novo ciclo de vida", conclui Aline Horikawa. A renovação da vida e os ciclos dos seres vivos que povoam a Terra também passam pelas cigarras. Esses insetos são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas. Servem de alimento para diversas espécies de aves, répteis e mamíferos. Além disso, ao cavarem túneis subterrâneos, as ninfas ajudam a arejar o solo, enquanto seus corpos, após a morte, devolvem nutrientes importantes à terra. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente